Matinês Imemoriais

Em um cantinho de minha memória, há um lugar mágico que guardo com carinho — o cinema de minha cidade natal. Ainda me lembro das matinês de Domingo, em um tempo quando poucas famílias possuíam televisão, e esse era o momento aguardado com grande expectativa e entusiasmo.

A plateia vibrava com o frenesi de crianças irrequietas e faladeiras, e nessa animação toda, doces e pipocas não podiam faltar, pois tudo era parte do grande espetáculo.

Mansamente as luzes do ambiente se esmaeciam para a tela gigantesca se iluminar. Com nossos olhos atentos voltados para ela, mergulhávamos nas imagens luminosas, nos sons, nos movimentos, no drama. Esquecíamos de onde estávamos e quem éramos. Vivenciávamos cada emoção com todo nosso corpo. Gritávamos, assoviávamos, ríamos, gesticulávamos e batíamos palmas, enquanto nossos pés marcavam o ritmo de nossos corações no piso amadeirado e no encosto da poltrona à nossa frente. Pipocas branquinhas lançadas ao ar eram como flocos de neve em um cartão de Natal. Éramos a pura emoção de uma inocência viva. Éramos crianças.

Quando o drama chegava ao seu final, e as luminárias se reascendiam, iluminando a plateia, ainda confusos esfregávamos nossos olhos e, pouco a pouco, percebíamos a nós mesmos, as poltronas, a tela, o cinema, enquanto os mais velhos nos noticiavam que o espetáculo havia se encerrado e era tempo de voltar para nossos lares.

Hoje contemplo essas lembranças e espelho nelas minha própria vida — uma matinê em um cinema imemorial. A expectativa da aventura cativa completamente a todos nós, e o foco concentrado de nossa atenção nesta dimensão tão densa nos leva a esquecer quem somos, de onde viemos e por que viemos.

Submersos no drama, sentimos em nosso âmago a necessidade de lembrar e até mesmo curar, e assim criamos caminhos e linguagens na esperança de um dia acordarmos. Criamos arte em todas as suas formas e religiões em todas as suas variações; semeamos terapias a cada lampejo de nosso despertar; inventamos a realidade virtual e uma inteligência para nos guiar e conectar. Criamos nosso próprio fractal com o mais puro e genuíno desejo de existir.

E no contínuo fluir das luzes, a plateia volta a se iluminar e a tela se configura diante de nosso olhar agora ampliado. Percebemos, então, com clareza, os personagens do drama encenado e a criança que o assiste; sentimos sua inocência e o pulsar de seu coração; e uma imensa compaixão nasce em nós, a compaixão do Espírito que se reconhece na criança a brincar, a vivenciar a puerilidade para dela emergir em sua sabedoria, consciente de si.

Agora vislumbramos a criatividade e a espiritualidade humana sob uma nova perspectiva, já não mais como o anseio pelo retorno, ascensão ou libertação, mas como a abertura ou permissão ao Espírito para que se realize, e a criança alvore seu dia, iluminando seu chão.

Somos o projetista com seu projetor, somos a criança na plateia, somos o personagem do drama nesse incessante fluir das luzes pelas densidades da criação. Finalmente, meus olhos repousam na simplicidade de uma pura intenção, a intenção de sempre me manter sensível e aberta às bênçãos sagradas desse misterioso e indelével fluir.

Dezembro 09, 2024.  

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