Quando Anjos Vestem Vermelho

Por vezes, anjos se vestem de vermelho ao pôr-do-sol, quando o dia se esvai em um manto de estrelas para alumbrar sua amada noite na magia de um transiente encontro celestial.  Uma deliciosa expectativa preenche meu coração sempre que vejo os anjos passarem silenciosos, sem se anunciarem, no instante em que meu olhar vira a esquina de uma rua qualquer ou fortuitamente trespassa a janela da sala de estar.

Não há como prever quando a roseira irá florir, mas é meu acalento que aquece sua seiva em seu contínuo despertar.

A poesia não é a linguagem de poetas, mas do amor e da vida. Sem ela, todo brilho se esvai, toda conexão se densifica até que, por fim, nos questionamos quem verdadeiramente somos.

Nossa consciência flutua entre densidades, em uma dança contínua e instável que nos toma na surpresa do momento, até reconhecermos que somos bailarinos cocriando no palco de um eterno evoluir.

Somos todos parceiros nesse jogo de dualidades — ora mais denso ora mais sutil — e a evolução de nossa consciência se revela no tom, naquele “como” nosso corpo se anima, na maneira de vivenciarmos cada encontro, cada conexão, cada transcendência — ou não.

Quando, em um belo dia, acordamos de toda pretensa liberdade, toda pseudo-alegria e prazeres fugidios, descobrimos que o amor é o que nos libera verdadeiramente de todas as amarras, é o que somos, e o amor não subjuga, oprime, atemoriza ou fere a si mesmo ou ao outro no qual se reflete e anuncia.

Nessa dança de dualidades da criação — corpo e alma, ser denso e ser sutil — a qual nos entregamos e dela renascemos unificados encontramos também nosso limite imutável em uma profunda dimensão — nossa fisicalidade, nosso gênero. Talvez a evolução de nossa humanidade coletiva suavize as densidades e os contrastes de nossa experiência, não provida pela ciência, mas na reverberação de uma ascensão íntima e essencial a partir de cada um.

Se nos permitíssemos silenciar e contemplar por um instante apenas, talvez percebêssemos que nossa sexualidade emerge justamente de nossa limitação, nossa atual imutabilidade. E é nesta condição que o amor cria e nos perpetua enquanto humanidade, através da concepção de uma unidade toda nova e única — um novo ser, uma nova vida.

Ao nos entregarmos apaixonadamente ao prazer físico, nos despojamos e esquecemos quem somos e nesse instante de entrega a mais poderosa ilusão, o amor se revela no rubor de um pulsar, na radiância de um precioso existir. Pois que a luz desse fugaz resplendor não nos ofusque, que o arrebatamento não nos cative a ponto de nos lançarmos em um infindável brincar de espelhos no qual nos subjugaríamos às nossas limitações, à nossa impossibilidade humana, nos lançando à deriva em um mar de possibilidades perdidas.

Quando abro os olhos e meu coração, e contemplo a paisagem humana no qual existo, percebo o quão agrilhoados ainda estamos numa sexualização exacerbada e seus inevitáveis acompanhamentos e promessas, que envolvem e submergem nossos selados corações na puerilidade de uma ilusória libertação.

Mas ao que há abaixo corresponde o que há acima, e no horizonte deste contraste, vislumbro meu ser nos anjos com suas vestes flutuantes avermelhadas discretamente a passar e a sorrir para mim.

Outubro 16, 2024.

marisrohenkohlen.com/when-angels-dress-in-red

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