
Era um final de tarde estranhamente morno de um Domingo invernal. Podia-se ouvir a algazarra festiva das crianças no apartamento vizinho e os cães latindo ao longe. Entretanto, nada parecia preencher o vazio da sala de estar, e eu me sentia cansada, perdida e sozinha, murmurando em lágrimas minha rendição a um simples desejo, uma única intenção — saber quem eu sou.
Na manhã seguinte, despertei com um pensamento claro percorrendo minha mente: “Você é luz da Consciência… sensitividade, é o que você é.” Perguntei quem estaria conversando comigo e a resposta foi imediata: “É a Mãe, querida, é a Mãe!” Ela ainda acrescentou: “Não se preocupe com o caminho a seguir, viva o que se apresentar à sua frente. É para isso que você veio.” Junto com suas palavras, um entendimento fluido serenou meu coração. Um novo dia se iniciava agora para mim e para minha Mãe.
Eu sou a luz da Consciência e minha sensitividade é a expressão dessa luz. A sensitividade consciente é tudo que vim realizar. Mantê-la viva, aberta, atenta ao novo que se apresenta é o que mais importa.
Uma sensitividade aberta implica em uma não crítica ou julgamento. Implica em empatia, tolerância e compaixão, acima de tudo, comigo mesma, com minha condição humana, minha origem gaiana.
Minha evolução nessa história humana acontece simultaneamente à evolução de minha sensitividade consciente. Não requer esforço especial, pois um estado de ser sucede a outro. Um estado de ser desencadeia o surgimento de seu subsequente. Minha intenção em viver plenamente esse momento me leva ao próximo — um momento que sucede a outro momento — e assim, minha história se desenrola e evolui, não como uma simples sucessão de acontecimentos vivenciados, mas como a consciência do momento que eleva a consciência da própria história, e a consciência da história é a evolução — são os momentos se sucedendo em mais elevada ou profunda expressão, maior sutileza e expansão.
A abertura consciente de minha sensitividade também me torna receptiva a toda consciência expressa, a todos os estados de consciência e memória — minha própria corporalidade, meus pensamentos e sentimentos, seres densos dessa vida ou além, seres interdimensionais, seres sutis e angelicais — numa comunicação empática e fusional sem limites. A intenção de manter-me aberta a toda comunicação benevolente é a própria abertura. Não há deslocamentos, mas apenas o desejo sincero do meu coração a permitir que a consciência mais apropriada ao momento se torne reconhecível a mim, para o bem da expansão da Consciência.
A sensitividade é também uma habilidade ou atributo humano que pode ser vivenciado em níveis diversos de conhecimento e consciência, seguindo as pegadas da jornada evolutiva de cada um. Pode, até mesmo, assumir contornos arrogantes e extravagantes, como uma alegoria compensatória a trazer um aparente equilíbrio — mesmo que frágil — a um jogo de dualidade. Ou ainda, pode atrevidamente tomar o leme, pseudocapitaneando nossa nau, e navegar pretensamente ao seu bel prazer nas águas de nossa inconsciência profunda. Basta para tanto que unilateralmente a neguemos, rejeitemos ou negligenciemos — ou temamos — de forma a nos perder nas turbulentas vagas de uma extrema dualidade. No entanto, a verdade é que somos a nau, o leme, o capitão e o mar, e a mera intenção de viver uma evolução mais consciente é suficiente para gerar transcendência, o ponto de mutação para a liberdade e a evolução consciente, como ser histórico e ser espiritual, nessa esplêndida experiência humana.
Viver o momento que se apresenta da forma mais consciente possível é o que verdadeiramente importa. Ao menos, essa é a perspectiva que trago comigo agora, uma vez que cada novo momento evolutivo muda a perspectiva do meu olhar. Nada é linear, mas acontece como despertares de um estado de ser em outro estado de ser, em um desencadeamento sucessivo. Minha consciência nesse momento desencadeia o próximo despertar. Isso é tudo o que importa, é o propósito de estar aqui. Cada experiência é relevante, cada vida é preciosa em sua delicada singeleza, porque é em si mesma a própria luz da Consciência.
Agosto 20, 2024.