
Talvez soe estranho, como uma dissonância a romper um acorde perfeito.
Talvez soe fantástico, como a fugaz carícia de uma borboleta azul em meio às compras em um supermercado.
Talvez soe insano afinal, como uma divina revelação, nada súbita, mas dessas que teimosamente se insinuam aqui e ali, meio travessas, e conquistam a gente até se tornarem irremediavelmente presentes.
Então, na casualidade de um dia qualquer, percebo que sou a luz radiante de um beijo, em uma fusão intencional e amorosa de dois seres. Como dois contrapontos em movimento contínuo, a compor e dançar sua própria harmonia musical, sou ser gaiano e ser espiritual entrelaçados em um arrebatamento criativo.
Sou esse ser tangível que se alegra e se fere no roseiral em flor, para descobrir-se ungido no aroma de seu orvalho matinal.
Sou esse ser gaiano — história viva — vagando em suas origens, e minhas pegadas são oferendas sagradas ao mar das lembranças. Sou família, natureza, sou Gaia.
Mas sou também esse ser sutil, espiritual, angelical, sublime silêncio musical.
Sou o desejo, a intenção de um espírito em comunhão a insuflar uma memória atemporal.
Sou o beijo de dois seres, concebendo a beleza e a luz de um profundo amor.
Como seria possível amar a mim mesma, considerando-me tão somente um único ser, se todo ser é a própria revelação de um amor em si? Amar a mim mesma não seria, então, viver o amor que sou em minha mais plena e profunda dualidade?
Em meu ser transcendental repousa minha compaixão pelo ser imanente e incipiente que sou — criança insegura e trôpega diante das surpresas e dos contrastes da vida. Sua evolução nessa dimensão tão densa seria incrivelmente lenta e enfadonha sem a benevolência, estímulo e inspiração de meu ser espiritual.
De outra parte, quando mergulho em minha densidade, no esquecimento de quem verdadeiramente sou, sinto saudades, anseio desesperadamente a leveza. Medito, oro e sonho dimensões elevadas e seres alados a me acalentar, inspirar e amar. Nada me acalma e alegra mais que um tênue lampejo ou um suave toque de sua presença — minha presença.
O amor entre esses dois seres — espiritual e gaiano — é o aroma que me unge, conecta, nutre e expande. O mais íntimo desejo os entrelaçou como esse efêmero e singelo portal em um infinito existencial — eu.
Assim, nada mais precioso que o amor, pois nele afirmo quem sou em minha essência, minha origem sagrada — minha unidade.
Nada importa mais que a consciência de minha sensitividade, porque ela é o próprio amor no qual navego, comunico e existo — minha natureza primordial.
A humanidade em sua dissociação vem criando caminhos ao longo de sua história coletiva com os quais sempre almejou a reconexão, o despertar e a relembrança. Caminhos valiosos na medida em que nos reconduzem ao silêncio, à sinceridade e à simplicidade que sustentam a beleza e a ética de nossa presença alegre e criativa.
Minha sensitividade é o ninho delicado e aquecido que guardo em meu coração, onde me aconchego em uma unidade empática e fusional — humana — que indubitavelmente reverbero e reflito em todos meus relacionamentos.
No berçário da criação, a sensitividade é semente imortal em seu perpétuo germinar. Guardiã do mistério da existência, alumia portais em mim. Em seu regaço cristalino, me surpreendo despojada, transparente e livre. A pureza e inocência de minhas intenções nutrem e sustentam a experiência desse entrelaçamento sensível e íntimo, com sua luz radiante a resplandecer minha consciência e gentilmente me conduzir à percepção de que existo, sou humana, sou uma.
Julho 08, 2024.