
Meus olhos se fecham, e em minha paisagem interna, o sol prenuncia sua chegada com uma luz que acaricia o céu e recobre o mar com o dourado de inúmeras e pequeninas lantejoulas.
Ouço a risada dos anjos no brincar das ondas com as rochas da baia, e seus sussurros delicados no avançar da espuma sobre a areia da praia, em um convite a me mirar no fino espelho estendido a meus pés.
Surpreendo meu reflexo em meio às nuvens, em contornos indefinidos e formas que se dissolvem na imensidão do céu. Reconheço emocionada que sou esse ser sutil que rebrilha ao sol nascente e me fita com seu olhar penetrante, confidenciando seu saber e sua magia.
Observo nossos pés se tocarem na umidade da areia em um contínuo existencial, e percebo que sou esse ser sutil e angelical, e também, o ser denso e físico que o observa. Nós nos tocamos e nos entrelaçamos numa unidade — dois seres criando uma realidade, duas entidades evoluindo em comunhão. Existimos neste momento uma para a outra, vivendo um amor que transcende dimensões e mundos, e assim, nos tornamos uma.
Eu sou o anjo que me embala e acaricia, e sou a criança a brincar e dançar na materialidade para adormecer ao luar em meu colo angelical. Sou o mistério de um grande amor.
Se por um lado sou a criação divina que existe e evolui, cocriando o reino espiritual das almas e dos anjos, também sou a criança divina manifestada, moldada pelos elementos, que cresce e evolui, cocriando esse ser e essa consciência maior chamada Gaia.
Há preciosidade em cada ser e me recuso a ver meu corpo como um mero invólucro ou casca deixada para trás ao ascender eventualmente aos céus, no momento de minha transição. Meu ser denso segue sua jornada, se dissolvendo nos elementos, se eternizando na memória evolutiva que é sua e de sua mãe Gaia.
Mesmo que minha fisicalidade seja ilusória, o ser vibracional denso que a origina coexiste nessa manifestação dual amorosa do Espírito. Nas ondas do amor e da compaixão flui minha essência chamada amor incondicional que nutre essa coexistência que eu sou.
Em meu evoluir natural, sigo a manifestar realidades, circunstâncias para experienciar e descobrir meu próprio reflexo — a mim mesma — que reconheço ao observar. Mas sempre que minha sensibilidade e minha visão esmaecem, me sinto desconectada ou estagnada, desorientada em um universo de olhares densos, sem me aperceber, procuro ansiosamente no outro esse reflexo de mim ou, até mesmo, desejo intensamente que o outro me complete e restabeleça meu senso de unidade perdido. Nesse momento, o poder do amor esquecido ressurge de minhas densas sombras, se ornamenta com falsa nobreza e se dissimula em um jogo de espelhos e ilusões, gerando em mim dores profundas para eu acordar.
Amar a mim mesma requer sensibilidade em meu olhar para me reconhecer a todo instante em minhas incessantes transmutações; silêncio para me sentir presente e livre em toda minha corporalidade; e a consciência de que sou ambos, ser humano e ser angelical, ser denso e ser sutil.
E no sopro atrevido desse despertar, ouso me reconhecer fiandeira a fiar e entrelaçar minha própria dualidade, entoando a melodia que me embala e me leva a dançar, a girar e a girar na beleza e magia de ser dual e una, a um só tempo, nesse mistério verdadeiramente indescritível que nos acostumamos chamar de Amor.
Janeiro 29, 2024.