
Saudades do mar, saudades de casa, saudades de mim… É hora de voltar.
Enquanto a paisagem se transforma ao longo da estrada, viajo nas memórias de meus primeiros anos à beira-mar. Ainda posso sentir a imensa curiosidade e o desejo impaciente de lá chegar. A alegria do encontro com o mar me encorajava a superar o medo das temidas marolas que insistentemente perseguiam meus pés. Era junto delas, na areia úmida, que os reinos da minha imaginação ganhavam seu lugar e sua forma, nos castelos erguidos com o esmero e a solenidade de uma rainha. Havia também o vento quase incessante, sempre a moldar as dunas, varrer a praia, balançar os guarda-sóis coloridos e refrescar o cenário que ardia ao sol do verão.
Agora, aqui estou, nessa praia deserta, perfume gostoso de mar, chinelos nas mãos e a certeza que esse é o meu lugar.
As marolinhas tagarelas ainda brincam com meus pés e me contam segredos do fundo do mar. Um manto tênue cintilante flutua sobre as ondas, bordado pelo sol nascente no frescor dessa manhã. A bruma suave e envolvente umedece e perfuma meus cabelos, despertando uma sublime sensualidade em mim.
Uma onda impetuosa avança e reanima a areia da praia aonde pássaros vêm apressamente se alimentar. Caminho sobre essa efêmera lâmina d’água, esse espelho da maré abundante em vida, onde experiencio o agora em sua imanência fluida, na magia dessa unidade fugaz entre o mar, a terra e o céu refletido. Como a rocha solitária a guardar a baía, eu testemunho e guardo o esplendor desse reino, desse encontro que ousa transcender os sentidos e as dimensões.
A viajante que percebia a si mesma em um vagar a esmo pelo limbo de uma saudade, reconhece-se, a final, em casa, nesse espelho a refletir seu mais profundo sentir, um sentir sem limites que tudo permeia, unifica e expande, no qual ecoa sua Alma, todas as Almas, todo Espírito criado. Não há nada que importe mais que esse sentir, pois é o princípio no qual eu existo, me comunico, amo, sei, evoluo. É por ele que estou aqui.
O despertar dessa perspectiva transfigura o chamado “véu” que se apresentava como uma fímbria etérea a separar terra e mar, a limitar a dimensão na qual vivo e minha consciência. Agora o véu surge como o espelho onde mundos coexistem sem fronteiras, se nele eu caminho desperta, deliciando-me com a areia úmida sob meus pés descalços, alegrando-me com as marolinhas e os maçaricos, consciente da beleza de estar aqui.
Percebo que o véu é essa passagem que se abre em meu coração com o frescor da maresia acariciando meu rosto, convidando-me a descer do penhasco da nostalgia e assumir meu lugar nesse espelho à beira-mar, nesse reino onde sou
rainha, Senhora das Marés — Senhora de Mim.
Dezembro, 2023.