Os ventos de Setembro trouxeram a chuva, regando a terra, lavando os telhados e minha alma também, e, junto com o canto dos pássaros e os brotos da relva, minha criança interior retornou. Meu coração se encheu de alegria, pois era eu retornando ao lar.
Minha criança chegou me despertando em lampejos, pedindo para olhar, olhar as estrelas que se divertiam na constelação do amanhecer e me falavam da “hora dourada”, da centelha do primeiro olhar entre a mãe e seu bebê.
Assim, desse olhar foi emergindo uma nova perspectiva e alinhavando-se um entendimento no meu coração — transitório, como todos verdadeiramente são — que mais tarde decidi escrever, em três partes: O Olhar, Liberação e Mãe Gaia.
O Olhar

Uma centelha, uma pequenina centelha acende-se na energia do encontro entre feminino e masculino, em completude, em unidade, e o Espirito em Gaia celebra uma nova vida. Terra e estrelas concebem o pequenino corpo que abriga a própria Luz.
A mulher acolhe e nutre em seu ventre o mistério da vida — numinosidade moldada e acalentada por mãos universais. E no preciso instante, conforme as histórias humanas, ela se redescobre mãe, apresentando ao Sol a centelha guardada — seu bebê —, que em seu olhar maternal agora desperta e se reconhece Ser.
A criança recém-nascida, aconchegada ao peito, volta sua pequena face para a mãe e, em seu anseio natural, deseja conhecer a feição, os olhos de quem a acolheu. Num esforço supremo, abre seus olhinhos e, nessa terna iniciação, acontece o primeiro olhar, o vislumbre da centelha e o arrebatamento diante do amor mais genuíno, além do tempo, que jamais será esquecido.
A mãe vivencia e reconhece o Espírito nos olhinhos de seu bebê e, silenciosamente, diz a ele que está aqui, existe nesta dimensão, ainda pequenino e frágil, onde é guardado com todo o carinho e amor.
Para o bebê, sentir-se no olhar da mãe principia uma jornada de consciência ancorada no aqui e agora, guiada pela presença do Espírito que É. Durante seu crescimento, a cada nova revelação de si — seu corpo, seus movimentos, suas habilidades — a cena inicial irá se repetir e a criança irá buscar na mãe a confirmação de que seu Eu divino está presente, enquanto aprende e evolui nesta vida incipiente.
Como é importante propiciar o brincar, a descoberta, confiar na guiança do Espírito da criança. E, se porventura, pelas circunstâncias, a criança se desorientar, quão valiosos o olhar observador e a presença compassiva da mãe, a permitirem que o silêncio criador realinhe seu bebê em seu caminho.
Nasce, assim, a autoestima e a auto-orientação na criança, pelo reconhecimento de sua magnificência original, algo inestimável à sua existência nesta dimensão, nesta vida.
No universo materno, o observar desperto traz consigo a sensibilidade, a inocência e a compaixão da sua própria criança interior — seu Espírito. A numinosidade nos olhinhos de seu bebê é o reluzir refletido desse seu tesouro mais precioso e íntimo, que a mantém viva, sempre em evolução.
Ao navegar sozinha, em seu silêncio, nas sutilezas de si mesma, a mãe permite-se experienciar em seu coração o Amor e a Sabedoria do Espírito que É, libertando a si mesma das amarras do medo e da baixa autoestima. E a cada aprendizado de seu bebê, ela celebra e ri com alegria e graça, em cumplicidade e parceria. Esse é o segredo da longevidade que a mãe guarda e leva para suas experiências pessoais e relacionamentos, em sua própria jornada de vida.
Janeiro, 2020.