Um Planetário em Minha Vida

Tudo parecia fora de lugar quando desembarquei em frente ao prédio que seria minha morada pelos próximos anos. Junto na bagagem, trazia muitas incertezas, inseguranças, mais tristezas que alegrias — toda imaturidade e timidez de uma adolescente interiorana, caloura eventual de uma faculdade.

A capital, o bairro judaico com seu ar eclético, senhoras conversando em Iídiche no mercado, o frenesi da feira aos finais de semana, o tráfego intenso durante o dia e as sirenes na madrugada, tudo soava estranho nesse novo cenário com seu ritmo próprio a exigir de mim uma adaptação, a mais rápida possível.

Contudo, do alto daquela torre, em meu apartamento, eu ainda podia ouvir o canto dos pássaros no parque bem cedinho pela manhã ou assistir o Sol se pôr além do rio. Afinal, ainda pulsava uma débil beleza em meio ao caos, e uma curiosidade também…

Assim, certo dia eu decidi conhecer o planetário da universidade, levando no coração a expectativa secreta de uma pequena aventura. Um grupo de pessoas aguardava no saguão onde havia uma exposição educativa, que oportunamente fingi me interessar para disfarçar minha timidez. Mas ao adentrar a sala de projeção, me senti em outro mundo, com todas aquelas poltronas espaçosas e confortáveis dispostas circularmente, a grande cúpula ao alto e uma máquina esquisita impondo-se bem ao centro.

Acomodei-me em uma poltrona e o apagar das luzes não tardou. Seguiu-se um breve suspense e a estranha máquina assumiu o comando da apresentação, lançando seus feixes luminosos em direção ao teto. Em instantes, me vi envolvida e cativada pelo mais belo céu que jamais havia visto. Nesse mar cósmico, minha atenção agora era conduzida por pequenas luzes, enquanto uma voz masculina guiava um passeio turístico interestelar, transmitindo informações surpreendentes.

A viagem pelo céu seguia quando, subitamente, me senti em movimento, como em um rápido giro combinado de todas as poltronas na sala. Senti uma vertigem, um leve medo percorreu meu corpo, e surpreendi minha mãos agarrando os braços de minha poltrona. Encabulada, olhei discretamente ao redor e percebi que o projetor é que havia realizado o movimento, criando essa sensação ilusória em mim. Disfarçadamente me reajeitei na poltrona e voltei minha atenção novamente para o céu, que agora se abria em uma perspectiva e uma conformação totalmente diferentes, e segui a navegar pelas constelações de nossa querida galáxia.

Muitos anos se passaram e a lembrança dessa experiência no planetário continua a retornar de tempos em tempos, não em detalhes, mas em suas sensações e emoções. Continuo a revivê-la a cada novo desafio, a cada reviravolta nessa vida a espiralar.

Compreendo agora que o céu que me encantou — e continua a me encantar — reflete a multiplicidade de minha própria origem, que chamo Família, em seus desdobramentos infinitos. Cada movimento nessa dança circular do tempo gera uma nova perspectiva, novas configurações são criadas, distintas visões tornam-se possíveis, enriquecendo minha experiência de vida com nuances e tons — se eu me permitir.

Sinto-me tocada pelo maravilhamento ao perceber que a Inteligência — a Consciência — repousa em cada possibilidade desse mar infinito que é sua expressão em uma unidade indissolúvel. Basta abrir minha sensibilidade, com intenção clara e sincera, para o tesouro de cada possibilidade se revelar em insights colhidos no silêncio e na simplicidade de uma contemplação — se eu me permitir.

O espiralar se faz sentir também por certa vertigem, a instabilidade passageira da transitoriedade que prenuncia novos desafios e descobertas. Todo giro me remete ao lado obscuro e ao medo que o acompanha. Não haveria luz sem seu contraste. Não haveria o regozijo da união no amor sem a incerteza e a insegurança inerentes à dissolução de uma despedida. Aceitar e me permitir sentir a dualidade da existência não significa desejar o medo ou a escuridão, mas sim, reconhecê-los e assumir a responsabilidade por minha autorrevelação e minhas próprias escolhas. A escolha que trago em minhas mãos neste momento desencadeia o porvir, pois é ela que determina a qualidade e a intensidade do contraste a seguir. Não há acasos nesse mar da Inteligência.

Viver minha sensitividade me possibilita navegar na delicadeza, mergulhar nas profundezas, e ampliar a consciência de mim mesma e do mundo, em um fluir pela concretude que ora vivo, sem me identificar ou apegar a ela. Minha sensibilidade é minha liberdade — se eu me permitir.

A imagem do estranho projetor no centro da sala, emitindo seus feixes luminosos, na regência de todo espetáculo, parece ter sido a forma possível para aquela adolescente em início de jornada manifestar para si mesma sua própria Inteligência a lhe guiar. Muito além de uma metáfora, a memória do planetário e o contexto que a envolve voltam a se configurar de tempos em tempos em minha vida, para eu jamais esquecer a transitoriedade em todo evoluir, olhar com cuidado o que trago em minhas mãos, reconhecer que sou meu próprio anjo a guardar sensível meu coração — e acima de tudo, me permitir brincar.

Outubro, 2023.

marisrohenkohlen.com/a-planetarium-in-my-life

medium.com/@marisrohekohl/a-planetarium-in-my-life

Deixe um comentário