A Luz Dourada

Mais uma vez eu embarcava no trem. Era um daqueles antigos, com ventiladores no teto a compor um dueto monótono com seu molejo preguiçoso, dando ritmo e tom à rotina das pessoas, suas conversas e preocupações, seu tédio e silêncios. Com sorte, percebi um assento vago e sentei junto à janela, que algum passageiro anterior havia aberto com a grata intenção de convidar o ar primaveril a nos fazer companhia e viajar também. Alguns minutos se passaram e me lembrei de uns mantras que havia salvado no celular e coloquei meus fonezinhos para ouvir. O mundo lá fora corria quadro a quadro em meus olhos, enquanto uma estranha sutileza parecia querer ascender do aparente caos no interior do vagão.

O céu estava encoberto com nuvens brancas que me pareciam a princípio nada especiais. Era final de tarde quando o terceiro mantra começou a tocar. Mais relaxada, sentia o enlevo suave da música, enquanto observava as nuvens com mais vagar. Um brilho dourado surgia e se intensificava no céu, delineando as nuvens e perpassando-as com raios gentis. Havia delicadeza. Havia beleza. Duas nuvens desfaziam discretamente seu abraço, apenas a permitir que o Sol espiasse quem estava ali a admirar sua criação. Sua luz dourada embelezava o cenário de tal forma a me acolher e presentear.

Nesse momento, o trem chegava mansamente a mais uma estação. Ao olhar as pessoas se movendo de um lado a outro, me senti meio além do tempo. Parecia que o mundo se movia em câmera lenta e tudo adquiria uma nitidez incomum. O trem parou afinal, mas a estranha sensação permaneceu. Havia um silêncio perceptível em todos os sons. Uma sensação luminosa foi se insinuando em mim, aclarando minha mente e meu coração, e comecei a sentir que havia divindade em cada uma daquelas pessoas. Deus estava ali, em todos aqueles rostos, sem excluir nenhum, sem condicionar, sem julgar. Havia amor, aparente ou não, consciente ou não, não importava, eu via amor naqueles rostos. E um pensamento sussurrava em minha mente: “Diversidade… infinita diversidade…”

O trem começou a se mover novamente, partindo da estação, me reconduzindo devagarzinho ao tempo, enquanto o brilho dourado se esvanecia no ar. Desde este dia, descanso o olhar e observo sem pressa as pessoas nas ruas onde ando, e aquela mesma sensação continua a emergir em mim. Deus está AQUI, em TODAS as pessoas, conectando com seus raiozinhos dourados uma a uma, tecendo essa diversidade sem fim que pulsa plena em seu belo, invisível e único Coração.

Novembro, 2019.

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