O Despertar da Criança II

Os ventos de Setembro trouxeram a chuva, regando a terra, lavando os telhados e minha alma também, e, junto com o canto dos pássaros e os brotos da relva, minha criança interior retornou. Meu coração se encheu de alegria, pois era eu retornando ao lar.

Minha criança chegou me despertando em lampejos, pedindo para olhar, olhar as estrelas que se divertiam na constelação do amanhecer e me falavam da “hora dourada”, da centelha do primeiro olhar entre a mãe e seu bebê.

Assim, desse olhar foi emergindo uma nova perspectiva e alinhavando-se um entendimento no meu coração — transitório, como todos verdadeiramente são — que mais tarde decidi escrever, em três partes: O Olhar, Liberação e Mãe Gaia.


Liberação

Nascer, dar a si mesmo à luz, numa espiral anímica o bebê faz-se presença, autorrevelando-se  pela primeira vez. Nessa dança envolta em mistério, a mulher abre-se ao movimento que vem de seu íntimo ao dar à luz, ao realizar-se em criação e ser mãe.

Nascer é separar-se e o breve gesto que confirma essa liberação é agora consciente, voluntário e altruísta — o corte do cordão umbilical.

Na Natureza, a mãe, em seu instinto sábio, realiza o corte do cordão umbilical logo após o nascimento de seu filhotinho, pois o mesmo precisa se independizar o mais breve possível para sobreviver. Nós humanos, em nosso processo civilizatório, nos afastamos dessa sabedoria natural ao delegarmos a responsabilidade desse corte a outras mãos, privando mãe e bebê de vivenciarem em sua plenitude esse momento inicial de excepcional importância.

Há benevolência e compaixão no corte do cordão umbilical, pois neste único gesto, a um só tempo, a magnificência do bebê é honrada e as limitações de sua humanidade insipiente são reconhecidas, algo fundamental para seu crescimento natural e saudável, com um coração generoso em autoestima, e sempre aberto e confiante na guiança de seu próprio Espírito.

O entrelaçamento físico, essencial à vida na gestação, se desfaz ao nascimento e, inequivocamente, ao corte do cordão umbilical, permitindo que a vivência dessa íntima conexão ascenda a níveis mais sutis, honrando esse amor incondicional desvelado na aurora do primeiro olhar.

Para o bebê, o corte do cordão umbilical é o primeiro gesto de confiança em seu Eu espiritual e respeito à sua liberdade para seguir sua própria sabedoria interior, afirmando sua presença. Há compassividade, pois há o reconhecimento de toda a inconsciência desse pequenino ser humano no princípio de sua longa jornada de aprendizados e a relevância de fazê-lo sempre de mãos dadas com seu próprio Eu espiritual. O amor criativo, expansivo da mãe recolhe-se então ao seu próprio coração e rebrilha em compaixão. Não há mestria maior que o silêncio criador da mãe diante de seu filho, com seu olhar observador, cuidadoso e benevolente.

O corte do cordão umbilical é liberador e representa a afirmação de uma mãe responsável sobre sua mestria diante de seu bebê, de seus próprios relacionamentos e de si mesma. Reconhecendo-se humana ao seu próprio olhar, diante de sua maternidade, abre-se ao seu próprio Espírito, à escuta de seu Amor e sua orientação. Ao soltar as amarras da imaturidade, da infantilidade, reacende sua criança-mãe interior com toda beleza, alegria, entusiasmo e vigor, renovando-se a cada nascer e liberar revividos em cada descoberta sua e de seu bebê, a cada amanhecer neste horizonte de possibilidades.

A espiral anímica do nascimento e o gesto liberador consciente que a segue marcam a completude da criação e evolução humanas. Ao soltar as amarras e realizar a liberação, a mãe reafirma sua responsabilidade e presença nessa evolução, confiando e permitindo o vazio onde repousa a semente do mistério da criação. E o entrelaçamento entre ela e seu bebê redimensiona-se então no seio materno universal, pleno em generosidade, abundância e longevidade.

Janeiro, 2020.

marisrohenkohlen.com/the-awakening-of-the-child-ii

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